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Titio Artrite é um cinquentão que no ano de 1964, então com quatro anos, foi infectado pelo vírus denominado pelas nossas respeitáveis e assustadas “pessoas mais velhas” como os quatro cabeludos maconheiros tocadores do barulhento Yeah, Yeah, Yeah. Mas não foi só por conta do  Ié, Ié, Ié.

 Foi por conta dos barulhinhos esquisitos de uma música totalmente estranha e alucinante para um menino acostumado apenas com o “Nana, nenê, que a cuca vem pegar“, e com o refrão da famosa canção de Luiz Vieira: “sou menino passarinho com vontade de voar” (PRELÚDIO PARA NINAR GENTE GRANDE – Menino Passarinho).

Juro que mesmo antes de abandonar a chupeta já era fascinado por música, especialmente pelos sons da flauta de Altamiro Carrilho. Mas o barulhinho vindo da Sonata de um vizinho (aliás, um respeitável  Guarda Civil com seus vinte e poucos anos) me deixou enfeitiçado.

Algum tempo depois os quatro cabeludos viraram sucesso nos cinemas, mas  era proibido para crianças.

Na mesma época apareceu o Roberto Carlos com O Broto do Jacaré;  ele sempre com a tal guitarra elétrica pendurada.

No natal de 1965 sonhava ganhar uma guitarrinha; meu pai comprou uma Caloi Rio 400. Eu detestei, morava em prédio e, mesmo pequenina, a magrelinha ainda esperaria uns dois anos para eu conseguir pedalá-la. Como consolo um tio me deu uma guitarrinha de plástico, daquelas com fio de pesca imitando as cordas.  

Certa vez vi e ouvi um homem experimentando um violão elétrico numa antiga loja chamada A Melodia, situada em frente ao estabelecimento do meu pai. Mas o som que saia daquilo (um violão Del Vecchio igual ao do Tonico e Tinoco) nada tinha de semelhante aos violões elétricos que via numa capa de um disquinho dos Beatles; na ocasião acreditava que os sons que me arrebataram eram feitos pelos violões elétricos; isso depois de ver e ouvir Os Incríveis e os Jordans. Que dedilhavam nas tais guitarras elétricas – que julgava ligadas na tomada – músicas chatas iguais às das matinês do Cinema. Um barulhinho fininho e estridente; que machucava os ouvidos de tão ruins ( cf. Milonário  na versão dos Incriveis em relação aos Dakotas )

Certamente,  aquele “som” só poderia vir dos violões elétricos  americanos (prá mim os cabeludos eram americanos), ou do violino grandão (o baixo Hofner).      

Assim, durante  mais uns três ou quatro anos sonhava com  aqueles sons. Mesmo sem que ninguém me desse um compacto daquele conjunto “americano”, amava os Beatles ouvindo os Incríveis com sua Rá.. Tá…Tá..Tá…Tá. 

Demorou um pouquinho  até que num belo dia minha mãe, já cansada de tanta aporrinhação por causa dos maconheiros, comprou,  nas Lojas Americanas,  A Collection of Beatles Oldies (  But Goldies!).

Finalmente, depois de tanta procura, descobri que “aquele som” saia de um guitarrista de verdade; tocando uma guitarra de verdade.

 

Muito tempo, muitas “A Hard Day’s Night“, procurei até encontrar  a minha; desde então  “I Feel Fine“…

 

Pois bem, encontrei essa que se vê na foto acima e –  antes e depois dela – algumas outras  “de verdade” . Obviamente, pela estrada, encontrei diversas “falsas”.

Mas o  som “de verdade”, que fosse só meu, nunca encontrei.

Continuo procurando. 

Os Beatles prá mim foram o “Caminho Suave” (a antiga cartilha de alfabetização) para o mundo mágico dos sons de guitarra. Mágico, enlouquecedor e  frustrante.

Ah!…Se tudo que se quisesse se pudesse…

É sempre  dolorosa a conscientização de que não somos capazes de ser tudo o que sonhávamos vir a ser.

Despretensiosamente, neste blog, tentaremos contar um pouco sobre a The Long and Winding Road dos apaixonados por guitarra; em especial: o tocador “amador”.

Toca dor;  ama dor. 

 

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