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A Vida e Obra de Johnny McCartney e as Aventuras de Raul Seixas na Sociedade da Grã-Ordem Kavernista

Postado em 5 de agosto de 2006

por Maurício Rigotto

Parte 1
Leno, o guitarrista Jay Vaquer e Raul Seixas em 1976.gif
Novamente cá estou eu sentado defronte a máquina de escrever para tentar parir mais um texto. Claro que não estou datilografando em alguma obsoleta Olivetti, estou escrevendo no Word do microcomputador, mas quando uso o micro para essa finalidade, assim o chamo, devo reconhecer que é bem mais prático, embora ainda aprecie ocasionalmente martelar meus dedos na minha ultrapassada máquina de datilografia. Estou preparado, já abri uma garrafa de vinho e acendi um incenso e o arguilé. Não, não voltei a fumar nicotina e alcatrão, mantenho-me um ex-fumante fiel, nem estou consumindo nenhuma ervinha do capeta ilícita, só um inofensivo e aromático fumo de cereja. Coloquei um disco dos Byrds pra rodar nessa madrugada gelada e agora começo a escrever sobre um dos meus maiores heróis da adolescência, um cara que influenciou muito minha formação e minha maneira de ver as coisas, sem ele, creio que minha vida teria até tomado outros rumos. Refiro-me ao maior Rocker tupiniquim, o baiano Raul Seixas.

Mas o que falar de Raul sem ser redundante? Relatar sua trajetória desde o Krig-Há Bandolo, Gita, Novo Aeon e suas histórias e proezas? Isso até quem não é fã está mais careca que o Carnacini de tanto saber. Poderia narrar o show que assisti e a emoção de ver Dom Raulzito bem de perto, mas alguns chatos estão me achando esnobe por relatar esses shows, então vou deixar para uma próxima ocasião. Vou falar de alguns discos dos primórdios, gravados antes desses famosos álbuns citados anteriormente, que tem bem mais que o dedo de Raul e, embora extremamente significativos e relevantes, permanecem no ostracismo, ignorados pela maioria. Claro que a dificuldade em achar essas raridades contribuem para isso, mas vamos aos fatos.

raulzito-e-os-panteras.jpgNo início dos anos sessenta, Raul já liderava a maior banda de rock de toda a Bahia, Raulzito e Os Panteras, que em 1968 chegou a lançar um LP homônimo. Porém, no auge da febre da Jovem Guarda, o disco foi muito mal produzido e pessimamente distribuído, foi lançado apenas para a gravadora cumprir sua cota. O resultado não poderia ser outro, um fracasso retumbante. A banda acabou e Raul foi convidado a trabalhar como produtor da CBS, compondo inúmeros sucessos encomendados para Jerry Adriani (“Doce Doce Amor”; “Tudo Que É Bom Dura Pouco”), Renato e Os Blue Caps, Tony e Frankie. Trio Ternura, etc… Raul sabia que estava compondo porcarias descartáveis, mas pegou o jeito de fazer canções com apelo comercial. Claro que seu lado artístico estava deveras insatisfeito, dizia: “Eu faço Iê-Iê-Iê romântico, mas eu queria era fazer Iê-Iê-Iê realista”. Mas a CBS foi intransigente: “Ou você é cantor ou é produtor, não pode ser as duas coisas, e aqui o seu emprego é de produtor”.

Tudo que era artista contratado pela CBS gravava músicas de Raul, inclusive a dupla Leno e Lilian. Lílian era namorada de Renato Barros, do Renato e Os Blue Caps, e este levou ela e seu amigo Gileno Azevedo para a CBS para formar a dupla romântica da Jovem Guarda, já que no Brasil não tinha nenhum casal cantando junto como Sonny and Cher. O sucesso foi estrondoso, “Pobre Menina” e “Devolva-me” estouraram em todo país. Leno e Lílian seguiram com muito êxito, o relacionamento foi além da música, não dividiam apenas o microfone, e em 1968, quando o romance acabou, conseqüentemente a dupla foi desfeita. Leno lançou dois discos solos na mesma linha romântica e se manteve nas paradas.

Raul Seixas e Leno.jpg

Foi aos Estados Unidos e voltou com outras idéias após presenciar a força do Rock’n’Roll e o apogeu do movimento Flower-Power. Essas idéias vieram de encontro com as do produtor engravatado de sua gravadora, Raul Seixas. Essa afinidade aproximou os dois e ambos passaram a se reunir para fumar baseados e conspirar um novo rumo para a carreira de Leno, que não queria se acomodar como um cantorzinho romântico de sucesso. Consciente que a Jovem Guarda estava acabada e das perspectivas que o rock nacional apontava, com todas as mudanças sonoras e comportamentais vigentes, em 1970 passou a compor rocks com temas contestatórios e políticos, falando inclusive sobre reforma agrária. Leno e Raul armaram o disco que seria o grande divisor de águas: “Vida E Obra de Johnny McCartney”, um disco com temas falando de drogas, censura, repressão, torturas e impostos, com uma sonoridade que ia do hard-rock ao rockabilly, com alusões a Dylan e aos Beatles.

Capa Leno.jpgPrimeiro disco gravado em oito canais no Brasil, abre com “Johnny McCartney”, um rockão básico sobre o estrelato, parceria de Leno e Raul, ambos gravaram acompanhados pela banda A Bolha. Segue “Por Que Não?”, mais um rock pesado com A Bolha e “Lady Baby”, uma balada de Raul no estilo Paul em “Eleanor Rigby”, com arranjo de cordas e variações instrumentais escancaradamente anacrônicas. “Sentado No Arco-Íris” é mais uma parceria Leno/Raul em que A Bolha parece tentar soar como o Cream, já “Pobre Do Rei” é uma sátira irônica aos mandatários do poder. “Peguei Uma Apollo”, do baixista Arnaldo Brandão, é um Rock’n’Roll stoniano que já fazia parte do repertório da Bolha. “Sr. Imposto de Renda” é uma rápida vinheta gravada por Leno, Raul e Renato Barros aos violões, uma clara referência a “Taxman” de George Harrison. O country-rock “Não Há Lei Em Grilo City” alarmava sobre a violência urbana, nesta faixa Leno foi acompanhado pela lendária banda uruguaia Los Shakers, que também o acompanha em “Contatos Urbanos”. A melodia de “Convite Para Ângela” seria reaproveitada por Raul anos mais tarde na canção “Sapato 36″.

Leno.jpgQuando mais da metade das músicas foram vetadas pela censura federal, fato que nunca ocorreu nas ingênuas gravações da Jovem Guarda, a CBS quis ouvir o que havia sido gravado e constatou que aquilo fugia totalmente aos padrões comerciais vigentes e determinou o arquivamento do projeto. Pouco tempo depois, Leno trocou a CBS pela Polydor e foi informado que todos os tapes de “Vida E Obra de Johnny McCartney” seriam apagados, tornando-se o grande elo perdido do rock brazuca.

Um quarto de século depois, em 1995, o pesquisador Marcelo Fróes realizava uma busca aprofundada no arquivo de tapes da antiga CBS, atual Sony Music, em virtude de estudos para o lançamento de um livro sobre a Jovem Guarda, quando se deparou com duas caixas empoeiradas em cujas etiquetas constavam músicas de Leno que ele nunca ouvira falar. Intrigado, entrou em contato com o artista para saber do que se tratava e este respondeu estupefato que era o seu disco “Vida E Obra de Johnny McCartney”, que ele há vinte e cinco anos acreditava ter sido apagado.

Leno finalmente lançou o disco em CD pelo seu minúsculo selo Natal Records, em uma tiragem de pouquíssimos exemplares, mas é quase como se permanecesse inédito, devido ser praticamente impossível de ser achado. Um grande disco de rock nacional em que Leno tem o luxo de ter como parceiro e membro da banda o então desconhecido Raul Seixas, uma raridade que só veio à luz devido a uma obra do acaso.

E não é que o destino foi generoso comigo também? Durante uma viagem, estava eu garimpando aqueles balaios de saldos que algumas lojas de CDs possuem, em que os CDs ficam todos amontoados em total desordem, com preços ridiculamente baixos e que geralmente só tem títulos encalhados que ninguém quer nem de graça, quando me deparei com um “Vida E Obra de Johnny McCartney”. Quase não acreditando que estava com um exemplar do disco perdido de Leno em minhas mãos, perguntei o preço ao balconista e fui informado que o compact disc me custaria a vultosa quantia de três reais!

Se alguém ficar curioso em conhecer, será um regozijo para mim proporcionar uma oitiva.

http://www.osarmenios.com.br/2006/08/a-vida-e-obra-de-johnny-mccartney-e-as-aventuras-de-raul-seixas-na-sociedade-da-gra-ordem-kavernista/

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